Começo
Element surge - Lion's story
Versão: 1.1
Autor: Rafael Vianna
A noite de sexta.
Rafa, boas notícias: vou voltar pra casa. Obrigado por tudo nestes últimos meses, você é um amigo maravilhoso. Beijos.
Assim dizia a mensagem, lida através da notificação no relógio e depois no visor do celular. Era perto da meia-noite de uma sexta-feira qualquer de verão. Lembro bem pois é difícil esquecer a sensação única do frio na barriga em meio ao calor e aos mosquitos. Não que a notícia fosse inesperada ou sequer repentina. Todo o comportamento já havia mudado nas últimas semanas. Os sinais de que algo iria ocorrer eram claros e, no fundo, eu já tinha assentido com a ideia de que ela iria voltar para a casa onde vivia com o antigo namorado.
Bebo mais um gole da minha água, agora já pensando em alterar para uma bela dose de Jack Daniel's: após os 30 e alguma coisa de idade, beber todos os dias não é a melhor opção. Mas talvez hoje fosse. Mas por hora, apenas a água me basta. E não, nem é para hidratar eventuais lágrimas caindo pelo rosto pois este não é o caso. Elas já se foram há mais tempo. Neste momento só há a sensação de uma antiga amiga entrando pela porta do apartamento e indo em direção a geladeira para pegar uma cerveja. Ela se senta ao meu lado no velho sofá preto e diz Bem, eu te avisei, não avisei?. Sim, você me avisou minha velha amiga insegurança que novamente eu faria o papel do bálsamo para ser esquecido após algumas noites de volta com o antigo amor dela.
Faço um movimento de pegar o celular e responder, mas antes tiro a notificação do chat onde conversamos. É o único ato que posso fazer no momento. Entre a vontade de não responder e a dúvida do que escrever, decido seguir a linha simples e mais óbvia: a resignação.
Que ótimo guria, eu espero que dê tudo certo. Fica bem. Seja feliz. Se cuida.
A música no meu Spotify não poderia ser mais irônica para o momento: Since U been gone (a versão do A Day to Remember). Olho o que tenho programado para o meu sábado no celular enquanto termino o que estava escrevendo no Reddit - outra poesia sobre um coração partido. Vejo que marquei academia e vôlei. E a tarde tinha planejado seguir com o ensaio de violão. Apesar de até agora eu parecer um fracassado jogado no sofá numa sexta, eu sou bem o oposto disso: minha forma física é muito boa. Jogo vôlei, pratico boxe, vou na academia 6 dias por semana. Faço corrida. Tenho apartamento (2 na realidade), uma SUV, trabalho de gerente de TI em uma empresa multinacional gigante, falo inglês e francês além do português nativo. Sou loiro, olhos azuis, 1,76 de altura, 74 Kg. Todos os dentes brancos e alinhados. Uma meia dúzia de tatuagens. Sei tocar violão de forma razoável. Desenhar. Escrever. Cozinhar (muito bem inclusive). Gosto de animais. E já passei da idade de ser um adolescente grande. A descrição assim livre, como se fora um currículo, é bem interessante. Admito pois eu sei bem os olhares (e recados no instagram) que recebo quando bem arrumado. A questão é que, para quem deveria ser interessante, nunca o é. E eu sempre acabo escolhendo quem não deveria. Ou neste caso, eu apenas me deixei envolver novamente - como já acontecera em outras vezes.
Espero uma resposta como de costume mas esqueço que desliguei a notificação. Então enquanto fito algo aleatório na TV da sala, tento pensar no que eu poderia ter feito de diferente desta vez. E a resposta é clara: nada. O spotify muda a música para Bad do Downstait. Uma notificação chega no celular, porém do instagram: Josi curtiu seu story. Era algo sobre um cachorro precisando de um lar. Ela sempre curte esse tipo de coisa. Mas nunca curte quando posto foto minha. Bem, o sinal sempre foi claro, eu só não havia notado ainda. Como alguém nascido no início de agosto, eu dispenso a notificação e coloco o celular de lado. Posso não estar com a minha autoestima em dia, mas ainda tenho um pingo de orgulho que me resta para ao menos não rastejar. A questão toda é que eu sei que será uma noite bem longa. Se eu fumasse, estaria neste exato momento pegando um cigarro para ir até a sacada e fumar olhando a noite cheia de nuvens. Nuvens que inclusive parecem estar formando uma tempestade pelos clarões que seguem um após o outro ao longe. Na direção da cidade dela, aliás. Poxa, tomara ela não estar fazendo nada na rua eu penso ainda sobre o costume de achar que é minha responsabilidade o bem estar dela. Dou risada do meu próprio pensamento idiota já que neste exato momento ela deve é estar celebrando a volta do relacionamento como qualquer casal (re)apaixonado faria. O sorriso logo tende a virar uma lágrima mas, novamente, ela não vem. Ok whisky, você venceu. Vai chover, não vou poder fazer nada ao ar livre amanhã então posso cancelar a academia e dormir até acordar de ressaca e arrependido de ter bebido. Assim será.
O sábado
Em algum momento da madrugada eu desperto suando. O ar-condicionado está ligado, meu cachorro está embaixo da coberta dormindo quentinho. Mas eu estou suando e muito. E não tem relação com a bebida, eu não sou de suar quando o ar-condicionado está marcando 18C graus. Não apenas o suor, mas um formigamento pelo corpo também se faz bem presente. Seria muito engraçado ter um mal súbito e simplesmente morrer na noite em que recebo essa mensagem dela é o meu primeiro pensamento. Mas a questão é que apesar do suor e do formigamento, não me sinto mal. Eu estou bem. Me levanto, vou lavar o rosto no banheiro. Meus óculos parecem embaçar a minha visão, melhor ficar sem eles. Vai ver estou virando o Homem-Aranha é o segundo pensamento que me vem na cabeça, afinal, fazer os outros rirem e rir de mim mesmo sempre foi um talento nato. Me olho no espelho brevemente mas ao invés de procurar por sintomas, o que eu enxergo é minha velha amiga novamente com a mão no meu ombro me dizendo pode malhar, mas não adianta não viu?! Não foi o bastante pra ela. E realmente não foi. Bem, ela nem ao menos quis me ver nos meses em que conversamos. Sempre havia uma desculpa, uma fuga. E a resposta é bem simples: eu sou feio. Ao menos, para ela, certamente. Eu esboço socar o espelho mas desisto. Não iria ajudar nada arrebentar a mão e o espelho, o reflexo seria o mesmo em cada fragmento dele que iria cair sobre a pia. Entro no box e tomo um banho gelado para ver se melhoro. As sensações diminuem, como se dentro de mim uma chama se acalmasse em contato com a água gelada. Eu poderia jurar ter visto aquela fumaça de inverno saindo de mim no banho mas certamente é apenas efeito de estar sem meus óculos e ainda bêbado após meia garrafa de whisky. Hora de deitar e tentar seguir com o sono.
Que horas são eu penso. Acordo antes do despertador. É cedo...e tem sol. Nem na chuva se pode confiar. Paciência. Vou tratar de fazer um café preto e colocar as lentes para ir na academia e depois no vôlei. Como dói a cabeça, minha nossa. Levanto, coloco ração e água nova para a Pipa minha pequena companheira sem raça definida. Ela está estranhamente obediente hoje. Levantou, não fez folia, sentou, comeu e foi deitar na cama dela. Normalmente ela é mais enérgica quando eu acordo. Deve ser a idade, quando eu voltar eu brinco com ela e se precisar, levo no veterinário. Cápsula de café na máquina, plantas regadas, torrada saindo da tostadeira, roupas na máquina de lavar para estarem prontas quando eu voltar... ok, acho que fiz tudo. Hora de botar as minhas lentes e tirar os meus...óculos? Percebo que fiz tudo sem eles. E estou enxergando perfeitamente como se estivesse com eles. Será que eu botei lentes bêbado ontem? Não pode ser. Corro até o banheiro para verificar mas as lentes estão no potinho. E minha visão está...perfeita. Será que o whisky me curou? O coração partido? Vou mesmo virar o Homem-Aranha? Até faço o gesto de lançar a teia pelo punho...vai que?! Mas não acontece nada. Bem, não sei o que ocorreu mas certamente não vou descobrir olhando no Google. Vou levar minhas lentes na mochila e marcar um oftalmologista na segunda-feira.
Desço pelo elevador, encontro uma vizinha - uma senhora - que me conta sobre como ela têm passado ultimamente. Ajudo ela com suas sacolas até o carro. Ela agradece e diz que vai me levar bolo mais tarde pois eu estou muito magrinho. Um amor de pessoa ela, mas não estou magrinho. Estou bem, inclusive meio...pançudinho. Só que não. Eu podia jurar que eu estava com uma leve barriguinha de cerveja devido ao consumo no verão mas olhando bem agora...eu estou mais em forma do que eu lembrava de ter reparado nos últimos dias. Curioso. Mas ok, minha instrutora da academia vai saber me dizer se está tudo bem ou não. Caminho até a academia que fica perto de casa. Entro, cumprimento os instrutores e percebo que eles estão meio confusos em me ver. Pergunto um que foi gente, tô com a cara suja? mas a resposta vem mais para um Na realidade não, tu tá...ótimo. Parece outro. Levo como um elogio, apesar de eu estar me sentindo como um chinelo velho roído por um cachorro e com o emocional de um soldado de guerra que perdeu todo o seu pelotão e ainda foi torturado pelo inimigo. Vou ao vestiário, largo minha mochila, imprimo meu treino e começo os exercícios. A questão é que eles parecem muito fáceis. Deve ser o álcool penso. Mas na realidade, o treino todo está absurdamente fácil. Aumento os pesos até ficar difícil - ou seja, quase dobrei a quantidade. Rafael, o que foi que tu tomou? Sério que com essa idade, tu que é tão esclarecido, resolveu tomar alguma droga pra aumentar a força? Olha esses braços. Até ontem tu tinha pelo menos uns 7 cm a menos aí nesse bíceps. Esse é o discurso da minha instrutora, Laiza. Até tento explicar que não, que na realidade nem tinha reparado, mas agora que ela falou... a questão é que minhas explicações são inúteis. E dificilmente críveis, mesmo para mim. Afinal, além de encher a cara após mais um coração partido, o que eu fiz de especial? Nada. A menos que o whisky que estava há semanas na minha casa tenha propriedades mágicas, tudo está muito estranho. Termino meu treino e saio da academia.
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